"...num fim de tarde em que eu trabalhava no escritório da
minha casa, um passarinho entrou pela janela.
Numa olhada vi que era um filhote de sabiá-laranjeira,
aquele marrom que tem o peito amarelo alarenjado.
Eles vivem no meu jardim com sanhaços,biquinhos-de-lacre,
pardais, rolinhas, bem-te-vis, beija-flores e outros.
Tentei facilitar a sua saída pedindo que Vagner
abrisse todas as janelas, mas não adiantou.
Meu escritório tem pé direito alto e ele pousou num lugar
de difícil acesso.
Ele voava apavorado, de um lado para o outro,
sempre no alto.
Dava para ver os seus olhos suplicantes e seu corpo
tremendo de medo, sem a mínima idéia de como sair dalí.
Num certo momento ele entrou numa fresta entre o teto e
o telhado e sumiu no forro da casa.
Imediatamente me lembrei dos gambás que volta e meia
pintam por lá e logo imaginei um covarde confronto
em que prevaleceria a força do marsupial.
Alguns pios, penas e sangue anunciariam o inevitável
"sabiácídio."
A noite estava chegando e eu teria que fechar as janelas
por causa dos mosquitos.
O coitado ficaria preso até Deus sabe quando.
Foi aí que me lembrei da fita do Rildo Hora.
(Rildo havia gravado um canto de sabiá no seu sítio,
para inspirar Erasmo a compor uma música para ele).
Corri no meu arquivo, introduzi o cassete no meu Tascam
e aumentei o volume das poderosas caixas Yamaha:
-FIUÍ, FIUÍ, FÍ, FIUÍ, FIUÍ, FÍ, FIUÍ ...
Os decibéis altíssimos ecoaram pela casa, transformando o singelo
canto da ave numa performance digna de um sabiá Pavarotti.
Eu e Vaguinho ficamos quietos, de olhos atentos,
focados na bendita fresta do teto.
De repente, todo serelepe, o sacana saiu do buraco,
cutucou as asas com o bico, deu uma cagada encima dos
meus discos e, nos olhando com petulância de quem
ganhou dez medalhas de ouro na Olimpíada,
alçou um voo estiloso do seu pódio imaginário,
saindo pela janela e sumindo na escuridão da noite.
Olhei para o Vagner e disse:
-O que será que o sabiá do Rildo Hora falou para ele ?
Um pássaro voando, motivado pela liberdade e pela música,
desfilando beleza e fazendo cagadas no caminho --
sei não, mas me identifiquei com o bicho."
Hilário depoimento de Erasmo Carlos (1941- )cantor e compositor
no seu livro MINHA FAMA DE MAU. pag 338.
Lis Gráfica e Editora - 2009

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