Por que boate (night-club) tem que ser no escuro,
quase blecaute, luxo quase suspeito, quase sempre
cave, buraco ?
Lembrança de esconderijo, coisa fora-de-lei,
o gosto do mistério e da marginalidade ?
Hollywood, claro, a única mitologia criada
no mundo depois das clássicas, influencia.
Estamos, ao descer as escadas,
entrando no ambiente excitante de
Bogart, Edward G. Robinson, James Cagney,
George Raft.
Lembrança de abrigo anti-aéreo,
que também não vimos,
mas vimos tanto no cinema que é como se.
Útero materno, trem-fantasma, caverna de Ali Babá,
lugar de cheiro vagamente ilegal.
de movimento vagamente irreal,
de aconchego densamente amoral.
Lá fora a cidade dorme.
Você é um alternativo.
Momentaneamente subterrâneo,
em ambos os sentidos.
Os garçons deslizam,
moças de coxas mais ou menos selecionadas
vendem cigarros e etecétera.
Mulheres que podiam ser tua mãe,
competem com gatas que podiam ser
tuas filhas, há reflexos em metais e espelhos,
sabiamente colocados e sutilmente iluminados,
sons que violentam os labirintos
e obinubilam a realidade,
promiscuidade da mais alta cidadania.
Nos olhos brilhos que não vêm da alma.
Um comércio de ilusão,
entre a hora do cão
e a corneta das alvoradas,
na catacumba dos ímpios,
fingindo que o homem é pó,
no pó está, a ao pó voltará.
MILLÔR (1975)


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