quinta-feira, 22 de julho de 2010

Romance de 1797, de autoria de
Marquês de Sade (1740-1814) conta a
história de duas irmãs: Juliette e Justine.

Aristocrata libertino, ator da Revolução Francesa,
tendo passado boa parte de sua vida na prisão ou em asilo de
alienados, Sade ocupa um espaço singular na história cultural
dos franceses, em relação à qual foi durante muito tempo um maldito.
Não seria possível reduzir sua obra a um corriqueiro manual de
deboches, versão elaborada e paroxística da subprodução
pornográfica, escrita por um maníaco perverso.
Sade, embora condenado à prisão por atentado aos bons
costumes, não passou pelos horrores que cometem ou a que são
submetidos seus personagens;
e o autor de Cento e vinte dias de Sodoma é um escritor
do Século das Luzes, alimentado por Voltaire e Rousseau,
que se defronta, como seus contemporâneos,
com a questão da Liberdade dos homens,
em sua relação com Deus, com a Lei e com a Natureza.
Ao narrar aventuras e histórias, o romance permite-lhe fazer
um esforço para conhecer o coração do homem e por isso
as cenas eróticas alternam-se com longas dissertações.

Justine e Juliette são irmãs.
O "divino  marquês" que as concebeu teve a pretensão de desenhar,
com elas, uma rigorosa simetria antitética:
Justine loura e virtuosa, opõe-se à Juliette, morena e pecadora;
a primeira é vítima de desgraças difíceis de imaginar,
e a segunda escapa das piores torpezas.
Vício e virtude, como eco e como espelho.
Desse modo, Sade inverte o discurso dos moralistas,
que associam a virtude à felicidade e
prometem punição para os malvados.
Justine torna-se a vítima de sua submissão ao dogma social,
moral e religioso;
e Juliette, o emblema das conquistas alcançadas pela revolta
contra a ordem estabelecida.
Com essa dupla gêmea, mas ao mesmo tempo contrastante,
Sade traz à cena os fantasmas que, mutatis mutandis,
habitariam todos nós e que o "leitor hipócrita", como
diria Baudelaire, não ousaria reconhecer.
Mais do que isso, porém, ele questiona as grandes reflexões
de sua época:
se reivindicamos o direito à felicidade,
se nos livramos das tutelas,
se podemos decretar o nosso direito à emancipação,
se estabelecemos um novo elo entre o sensível e o inteligível,
então com quais limites ao nosso desejo iremos nos deparar e
quais transgressões nos serão autorizadas ?

Para Sade, Deus jamais existiu: ao discurso evangélico
ele respondia com o catecismo do mal.
Sade não era um louco lúbrico.
Com uma lógica implacável e escandalosa,
ele invertia a ordem e os valores estabelecidos.
O único mandamento a ser obedecido é aquele com o qual
a Natureza decreta que gozemos.
Esse imperativo categórico supõe, pois, o fim de todas
as barreiras:
violência, crueldade e infâmia estão a serviço da
voluptuosidade do libertino.
Se à semelhança de nossos contemporâneos Sade fazia
o elogio da Natureza, afirmava em sentido contrário
que nela se inscreve o vício.
Assim, conforme Sade,  a Natureza - que no entender dos filósofos
deveria ser tomada como substituta dos
Mandamentos da Religião revelada,
permitindo a fundação de uma nova transcendência
capaz de justificar a ordem do Direito - não saberia produzir
uma moral política e social,
pois o que ela faz na verdade é justificar o crime.
Juliette encontra a felicidade no prazer sem limites, e,
Justine, mais complexa, ao perseverar na virtude,
convida os outros a praticar o mal e gozar com isso.

Sade é nosso contemporâneo, como atesta o uso em francês
do adjetivo "sadique"(sádico).
Devemos mandar Sade para a fogueira ?
Não, decerto não.
O que devemos fazer é a leitura de suas obras,
ainda que apenas para sentir
-logo após a repulsa-
o tédio que provocam aquelas páginas recheadas de
torturas, estupros e incestos.
Depois, para relativizar a magnanimidade de grande padre libertário
que lhe quiseram atribuir os heróis da contestação antiburguesa.
E, finalmente, para verificar se essa "experiência dos limites",
à qual Sade nos convida, permite a cada um, "compreender a si mesmo"
e interrogar-se sobre o lugar do Mal em nossa existência.

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