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sábado, 8 de dezembro de 2012


"Cada época se assoa de uma certa maneira.
Na belle époque, a mulher não tinha
pudor nasal.
Numa frisa de ópera uma bela senhora
puxava o lenço e, diante da platéia,
assoava-se com um som de trombeta.
Era sublime."

NELSON RODRIGUES

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Foto Emilie Johnsson

"Tenho, às vezes, saudades do futuro,
Como se ele já fora decorrido...
Um sentimento escuro
De quem, antes da vida, houvesse vivido."

TEIXEIRA DE PASCOAES (1877-1952) Contos indecisos

sexta-feira, 19 de março de 2010

MOISÉS NÃO ESCREVEU O GÉNESE

O Génese, segundo a tradição, foi revelada por Deus e escrita
pelos patriarcas hebreus; diz-se que também por Moisés.
Esta explicação escapa a toda crítica racional e é provável
que o Livro I da Bíblia se tivesse inspirado na
História Fenícia, escrita por Saconíaton muito antes
dos hebreus serem conhecidos e terem escrito o Antigo Testamento.
Evidentemente, seria muito vantajoso para alguns negar a
grande antiguidade deste livro tão precioso para a história humana,
ainda que ele deixe por terra alegações consideradas como sagradas.
Se o Génese é um documento falso, ou uma cópia,
a Bíblia não tem qualquer valor, os Hebreus não passam de
amáveis inventores de lendas e o Senhor é um fantasma
ao qual é inútil invocar, orar ou temer.
Por aí se vê o interesse capital que tiveram os crentes
de alegar que o livro de Sanconíaton(2.000 a.C.) era  ou uma pura
invenção literária ou uma obra mais recente que a Bíbila.
Como se tornava perigoso provocar um debate publico sobre
este enigma,  a melhor política foi a de mergulhar
o livro no esquecimento. Foi o que se fez.
Já tinheis ouvido falar de Sanconíaton ?
A ordem para que ele fosse esquecido foi bem seguida !
Oa ateus, muitas vezes pouco versados em conhecimentos
históricos, negligenciaram o autor fenício,
e os historiadores cultos que pudessem falar dele
tomaram precauções para não terem de enfrentar
a implacabilidade da justiça cristã.
A História Fenícia não chegou até nós.
Foi traduzida no século I por Filon de Biblos (64-141),
tradução que desapareceu misteriosamente,
como misteriosamente desapareceram durante os primeiros
séculos da nossa era os livros de História antêntica
que pudessem ser contrários à História segundo o
Antigo e o Novo Testamento.
Nada teria ficado da obra de Sanconíaton se,
no século III, uma controvérsia célebre não tivesse oposto
o sábio filósofo grego Porfírio (232-304)(de origem síria)
a Eusébio, bispo de Cesaréia(265-339).
Um deles, Porfírio baseando-se na tradução de Fílon
(que ainda existia), declarava que Moisés tinha copiado
da História Fenícia o essencial dos textos da Génese.
O outro, Eusébio, refutava Porfírio, reproduzindo
as principais passagens do livro.
Em quem acreditar, naquele que, formalmente, acusava
Moisés de plágio, ou naquele que afirmava que a Génese era
o fruto de uma revelação divina concedida ao
grande patriarca ?
Eusébio, para destruir os argumentos de Porfírio,
publicou primeiro textos da História Fenícia, depois assegurou
que Sanconíaton nunca tinha existido, e que o
livro tinha sido escrito por Fílon para combater
o cristianismo.
De repente, a querela mudava de tom:
o bispo de Cesareia, implícitamente, reconhecia portanto
que um fragmento do texto fenício era identico
à Génese da Biblia, mas alegava que Fílon era
um falsificador.
Foi uma tática desastrosa, porque vários autores antigos
tinham falado do historiador fenício e, referindo-se ás
suas citações,  o gramático Suídas(1000 d.C.) pôde mesmo revelar
os títulos de três das suas obras, das quais uma parte foi
recolhida nos Fragmenta Historicorum Grecorum(1584) de C. Müller.
Eusébio não manteve a sua acusação e contentou-se
em baralhar as cartas para semear a dúvida.
"De resto -- citamos o historiador Ernest Renan(1823-1892) --
Porfírio não era um falsificador,
mas um bibliófilo erudito.
O seu caráter, tanto quanto se pode julgar pelos próprios
escritos, foi de um polígrafo concencioso...
começando por nos surpreender o seu tom de boa fé...
Expõe com simplicidade o desejo que tinha de conhecer
a verdade, os trabalhos porque passou para o conseguir,
a grande quantidade de livros que leu, as dúvidas que lhe
causaram divergências de certos testemunhos."
Entre o honesto Porfírio e o piedoso Eusébio,
há que escolher !
Para complemento de informação, devemos assinalar
que Eusébio, ainda que seja o precioso escritor da
História Eclesiástica, tem uma reputação extremamente
duvidosa no que se refere aos fatos que relata.
O historiador inglês Eduardo Gibbon (1737-1794), censura-o por
não ter passado do papel de cortesão do imperador pagão
Constantino e por ter dado provas constantes de falta de
boa-fé na exposição dos acontecimentos que relata.
Segundo Gibbon, Eusébio estende-se com complacência
sobre tudo o que pode manter a honra do cristianismo
e suprime sistemàticamente tudo quanto for de
natureza a comprometê-lo.
A parcialidade de Eusébio em relação a Constantino
é efetivamente notória.
Por outro lado, um capítulo de sua Demonstração Evangélica
tem um título sobre o qual o menos que se pode dizer é que é
curioso: Até que ponto é permitido empregar a mentira como
remédio para aqueles que este método pode converter !
Não queremos fazer o processo da fraude piedosa,
mas torna-se agora fácil escolher entre o honesto
Fílon e o bispo de Cesareia.
Apesar de tudo tentemos ser justos:
Eusébio era um bom homem, que, embora cego pela sua fé,
nos merece uma imensa gratidão porque foi através dele
que nos foi transmitido o único fragmento da hitória autêntica
da nossa civilização.
Ousamos crer que o leitor reticente, mas de boa-fé,
depois desta exposição, ficará um tanto ou quanto abalado
quanto à existência positiva duma central de contraverdade.

Robert Charroux (1909-1978) arqueólogo francês
Le Livre des Maitres du Monde

domingo, 14 de março de 2010

ZÉ DO BURRO

A Ultima Hora de Curitiba, reinventou o personagem
Zé do Burro do filme O Pagador de Promessas.
Um andarilho pediu ajuda para pagar sua promessa
na catedral de Florianópolis.
Alguém sugeriu que transferisse o pagamento
para a Igreja do Rocio em Paranaguá.
Assim, sem sair do Paraná,
teria a cobertura diária do jornal de maior
circulação do Estado.
Nosso Zé do Burro tornou-se personagem de todos
os jornais -- porque um jornal imitava outro
e todos imitavam o Jornal do Brasil -- e também
das rádios e de duas televisões que funcionavam
em Curitiba na década de 60.
Quando chegou em Paranaguá com sua cruz esperava-se
que houvesse, como no filme, um confronto
com a autoridade religiosa.
Proibido de subir as escadarias para depositar sua cruz
aos pés da santa, seu esforço ganharia a dimensão
de martírio e talvez virasse notícia nacional,
até internacional.
Ocorre que o bispo de Paranaguá era um sábio.
Em vez do confronto,
decidiu ignorar a chegada do peregrino.
A escadaria ficou livre e as portas da igreja abertas.
A história teria acabado aí se o repórter que cobria
o assunto não tivesse cometido um erro,
pressionado pelo estreito deadline e pela própria ansiedade.
Enviou uma reportagem de véspera,
com relato do confronto que não houve,
do sofrimento que não existiu.
Os jornalistas chamam a isso de barriga.
No caso, uma abençoada barriga,
fecho de ouro de uma sequencia de reportagens
que retratavam a realidade social, o ecletismo religioso,
a humanidade do povo do litoral.
O leitor gostou.
Zé do Burro foi embora e as bancas continuaram
pedindo mais jornais.
O editor paulista recompensou os responsáveis
com um elogio e um ensinamento do velho
William Randolph Hearst, o magnata da imprensa
americana, que dizia a seus editores:
"Não tenham medo de cometer erros.
O leitor pode gostar deles."
Talvez por isso o jornalismo foi definido como
"a literatura com pressa."
O erro de boa fé faz parte de nossa vida profissional.
Grandes reportagens foram perdidas por
excesso de apuração.
Não errar é desumano.
É coisa de computadores.
É previlégio de engenheiros calculistas, gente sem graça,
nem imaginação.
A exceção foi o poeta e calculista Joaquim Cardozo que,
talvez por ser poeta, foi acusado de erro na tragédia
do pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte.

Adherbal Fortes de Sá Júnior - jornalista e escritor curitibano
Parte do discurso de posse na cadeira nº 30 da
Academia Paranaense de Letras, em 02/10/2007.