quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Nossa goela sempre sempre sempre
escãocarada engole elefantes,
engole catástrofes,
tão naturalmente como se.
E PEDE MAIS.

Não quero calar junto do amigo.
Não quero dormir abraçado ao velho amor.
Não quero ler ao seu lado.
Não quero falar a minha palavra,
a nossa palavra.
Não quero assoviar a canção parceira
de passarinho/aragem.
Quero komunicar em código,
descodificar,
recodificar eletronicamente.

E quando não restar o mínimo ponto a ser
detectado, a ser invadido, a ser consumido,
e todos os seres se atomizarem
na supermensagem do supervácuo
e todas as coisas se apagarem no circuito
global e o Meio deixar de ser Fim e
chegar ao fim,
Senhor !, Senhor !, quem vos salvará
de vossa própria,
de vossaterríbil
estremendona inkomunikhassão ?

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987)
um dos mais importantes poetas brasileiros
Impurezas do Branco ("Ao Deus kom unik assão")
Ed. Gilberto Mendonça Teles, Rio de Janeiro 2002 pags. 705-8.

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