Vespúcio chegou às costas do Brasil
situadas perto do equador.
É o terreno mais fértil da terra,
o céu mais puro e o ar mais agradável.
A vida dos homens, limitada por toda parte
a oitenta anos no máximo, estende-se entre
os brasileiros a cento e vinte e oito,
às vezes até cento e quarenta anos.
Ainda hoje, vêm-se portugueses decrépitos
embarcarem em Lisboa e rejuvenecerem
no Brasil.
Mas que espécie de homens habitavam esssa
região pela qual a natureza tudo fez ?
Quanto aos costumes, eram inteiramente
sem leis, sem nenhum conhecimento da
divindade, unicamente ocupados com as
necessidades do corpo;
a mais interessante dessas necessidades
era a junção dos dois sexos.
Sua maior habilidade consistia no conhecimento
de ervas que estimulavam os seus desejos
e que as mulheres se encarregavam de colher.
A vergonha lhes era desconhecida.
Sua nudez, que a amenidade do clima
os impedia de cobrir,
não envergonhava ninguém, e servia
para confirmar o uso de não distinguir
das outras mulheres, no acasalamento,
nem irmã, nem mãe, nem filha.
A necessidade de matar animais para lhe
servirem de alimento, os levou a inventar
o arco e as flechas.
Essa era a sua única arte.
Serviam-se delas em suas disputas de homem a
homem, ou de multidão a multidão.
O vencedor comia com sua companheira
a carne do inimigo.
Vespúcio disse que um brasileiro lhe deu a
entender que tinha comido trezentos homens
em sua vida e que este,
quando ficou sabendo que os portugueses
não comiam seus inimigos,
demonstrou grande surpresa.
Tal era, no mais belo clima do universo,
o estado de pura natureza dos homens que
chegavam à mais avançada velhice
em plena saúde.
VOLTAIRE (1694-1778) Escritor francês
Essai sur les moeurs


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