terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

"O gatinho morreu."

Esta fala pertence à comédia em versos
Escola de mulheres, de 1662.
Arnolfo, que já chegou à idade madura,
acolhe a jovem Agnes, tencionando torná-la
sua esposa.
A peça poderia ter o subtítulo:
"Como o velho babão não se casará com a ingênua."
De fato, os projetos do velhote serão frustrados,
e o amor triunfará sobre aquilo que seria um
casamento forçado.
No fim do Ato I, Arnolfo vem a saber que
Horácio, um jovem sedutor, foi apresentado
a Agnes.
No Ato seguinte (II, 5), ele chama a jovem,
que manteve de forma ciumenta na ignorância
do mundo e que havia proibido de abrir a
porta para quem quer que fosse.
Ele quer inquirí-la, descobrir o segredo de seu
encontro com Horácio, saber/ Até onde os
dois puderam se entender.

Arnolfo - Que dia bonito !
Agnes - Muito bonito.
Arnolfo - Quais são as novas ?
Agnes - O gatinho morreu.
Arnolfo - Pena, mas fazer o quê ?
Todos somos mortais, e cada  um é cada um.

Soberbo diálogo, repleto de banalidades;
os dois não têm nada para dizer um ao outro,
e Molière deixa bem clara a distância entre
eles. O vazio da conversa é um indicador
da idiotice que seria o casamento da dupla:
a sátira está presente no quadro que descreve
a educação recebida por Agnes, que foi
reduzida à obediência e à passividade
(quando responde muito bonito, ela não
passa de um eco da voz de seu tutor
e senhor).
A verdadeira escola de Agnes será a lei,
inteiramente natural, ditada pelo seu coração;
o espírito alcançará a jovem mediante
o desejo amoroso.

Entretanto, uma releitura da peça nos mostra
que Agnes não é tão ingênua como parece.
A célebre resposta O gatinho morreu esconde
um duplo sentido muito sutil.
Molière, que sabe muito bem o que significa falar,
dá a entender que o gatinho morto não é
o animal; quem morreu foi a ingênuidade de
Agnes, conquistada por Horácio.
O gatinho, cuja morte é irônicamente anunciada,
também simboliza a virgindade da heroína,
virtualmente desaparecida,
pois o amor já se instalou no seu coração.
O interrogatório a que em seguida Arnolfo
submete sua pupila é pontuado,
por um lado,
por alusões à natureza licenciosa e,
por outro,
pela ignorância de Agnes
- ela nada sabe sobre a sexualidade -,
o que lhe permite tornar visível o despertar
de seus desejos para o maior prazer do espectador,
que já começa a antever os chifres na
cabeça de Arnolfo.
Haveria, portanto, uma dualidade ou mesmo
uma duplicidade em Agnes:
ela deixa que dentro de si fale o desejo,
no exato momento em que apresenta ao seu
tutor a mais perfeita face da ingenuidade.
Seria a ingênua( um pouco) libertina?
Ingênua ou devassa?
Cândida ou esperta?
Em que medida Agnes tem consciência do
subentendido em sua frase?
A réplica, angelical e maliciosa, esperada por
todos os espectadores,
mostra a complexidade do papel de Agnes,
por melhor que seja a comediante:
primeiro, a jovem deve misturar as duas
facetas do personagem, do mesmo modo que
o ator no papel de Arnolfo deverá sublinhar
a estupidez retrógada sem contudo esconder
que o velhote, atormentado pelo desejo,
está loucamente apaixonado pela sua Agnes.

DICIONÁRIO DE CULTURA LITERÁRIA
PRESSES UNIVERSITAIRES DE FRANCE (PUF) 2002



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